O desinvestimento

O desinvestimento

Olá, queridos amigos.

Na semana passada refletimos um pouco sobre o emprego de nossas forças, de nossa energia vital, em função de uma melhoria na qualidade de vida não só nossa, mas de todos os que vivem ao nosso redor.

Mas parece também interessante pensarmos sobre o inverso: como é que fazemos para perceber até onde podemos investir?

Em outras palavras, é importante sabermos quando devemos desistir de um investimento. É vital sabermos até que ponto podemos nos envolver com algo – que pode nos exigir tanto até se tornar algo negativo em nossas vidas.

Não são poucos os filósofos que gastaram anos de suas vidas (além de muito papel e tinta) tentando descobrir o que é que nos move em direção ao que desejamos – ou o que é esses objetos de desejo fazem para nos atrair.

O ser humano tem uma necessidade natural, bioquímica, até, de sentir prazer. Assim, é claro que as coisas que nos trazem sensações boas tendem a ser colocadas como prioridades nas nossas listas mentais, e sempre que possível serão repetidas.

Mas qual é o limite entre a vontade de comer seu prato preferido (e a repetição desse prazer) e a preocupação com o impacto desse alimento no seu corpo (ou mesmo no meio ambiente)?

Colocando assim, em termos palpáveis, mundanos, a solução óbvia e talvez unânime seja a ponderação: a busca de um equilíbrio entre o prazer do paladar e a qualidade geral da alimentação.

Porém, nem tudo na vida é tão concreto quanto um sanduíche; e entre cada uma das fatias do pão escondem-se tantos segredos, que nenhum filósofo sonharia se atrever a descobrir.

A verdade é que cada um de nós tem guardadas informações sobre esse balanço. No fundo de nossas memórias, de nosso conhecimento de mundo, de nossas experiências todas, temos algumas respostas para questões como essa: o que é que eu tanto quero dessa coisa que me atrai?

Aliás, é ela que me atrai, ou eu é que me sinto atraído por ela? Está dada aqui a pergunta que devemos nos fazer, inicialmente. Pois se eu tanto quero, tanto busco algo, é porque isso me fará bem, não é mesmo?

Nem sempre. Quando estamos muito acostumados a um itinerário, qualquer mudança nos parece grande demais. Não nos questionamos se a alteração será benéfica, de alguma forma, mas reagimos instintivamente de forma negativa à novidade, ao diferente. E muitas vezes nos mantemos no caminho de sempre – “que se dane o celular me dizendo que o outro caminho é mais curto, aqui eu sei por onde ando”. E assim pisamos nos mesmos passos, repetimos o mesmo prato, desculpamos os mesmos erros, e acabamos assistindo ao mesmo filme. Tudo bem que a gente goste do filme, mas já conhecemos seu final, e a mensagem que poderíamos tirar dali já faz parte da nossa experiência, desde antes. Ou seja, nada de novo se extrai dali.

Sim, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio. Qualquer experiência repetida, qualquer prazer – ou pelo menos sua busca incessante – pode ser um prazer diferente. Mas nada nos garante que sairemos mais limpos do segundo banho do que do primeiro, ou que será uma experiência melhor do que a anterior.

No fundo, cada um de nós tem, sim, essa resposta. Nossa intuição, que é especialmente (mas não unicamente) formada pelas experiências que tivemos ao longo de nossa curta vivência em vida, nos avisa para que lado a balança deverá pender: se para o lado da satisfação do desejo, pelo prazer, mesmo que momentâneo, ou para o lado do controle, do equilíbrio que busca o saudável, e que talvez virá somente no longo prazo.

Por fim, devemos ter em mente que desejo, comedimento e prazer não são excludentes entre si.

Pensemos sobre isso.

Um grande abraço.