Sozinho consigo

Sozinho consigo

Olá, queridos amigos.

A semana está pesada, os dias passam rápido, as exigências no trabalho estão se acumulando, as expectativas da família são muitas, não há tempo para o ócio. Parece que os afazeres ocupam até nossas horas de sono! Estendemos um pouco mais o horário de trabalho pra dar conta de uma ou outra tarefa que ficou atrasada, chegamos em casa e nos deparamos com aquela pilha de louça esperando ser lavada, mas ainda temos que preparar a janta, trocar uma palavra com o marido/a esposa, com os filhos, dar comida para o cachorro... A lista não acaba.

Utilizamos todas as horas disponíveis pra cumprir tudo que é necessário, e nos prometemos encontrar um tempo livre pra finalmente voltar a praticar um exercício, ler aquele livro que ainda nem conseguimos abrir, botar em dia a conversa com os amigos, marcar aquela janta em família... Mas nada disso cabe nas 24 horas de um dia. Quem sabe caberia nas 168 horas da semana? São muitas horas! Talvez, mas no fim-de-semana sempre surge um imprevisto que nos leva pra outros novos compromissos.

Quando é que conseguiremos finalmente parar tudo? Quando é que a hora do verdadeiro relaxamento vai chegar? E, quando chegar, estaremos preparados para lidar com a quietude? Será que o modo como estamos vivendo, nessa correria tresloucada, nesse cansaço infindável, não é o modo que encontramos pra lidar com o mundo, com o trabalho, a família, os amigos e nossa própria saúde?

Pense nisso: você consegue se separar do seu trabalho? Quando você pensa sobre o que busca na vida, você pensa em algo que não seja trabalho?

Quando pensa sobre quem é você, consegue se esquecer de seu título ou posição profissional?

Se você respondeu “não” para pelo menos uma das perguntas, tenha consciência de que você não está buscando a realização pessoal, mas somente a realização profissional. Você não está focando em si mesmo, no autoconhecimento, na criação de um relacionamento saudável consigo mesmo: você está se determinando a ser um bom profissional. Isso é ótimo, claro, mas não significa se determinar a ser uma boa pessoa.

Quando as horas de tranquilidade acontecem somente durante o sono, é sinal de que você precisa redescobrir o prazer de estar sozinho consigo mesmo. Para sermos capazes de criar verdadeiros relacionamentos, de verdadeira doação ao outro, para estarmos prontos para o que surgir, precisamos estar antes aptos a nos relacionar com a nossa própria solidão, com o nosso próprio ser, com a nossa própria mente inquieta. Precisamos doar atenção verdadeira e profunda ao que se passa por trás dos nossos olhos, e resistir à vontade que temos de fugir desse enfrentamento.

Sentir a nós mesmos, compadecermo-nos dos nossos próprios sentimentos, abraçar as nossas dores, angústias, medos e irritações, compreendê-las e, enfim, devorá-las. Para que possamos depois digeri-las, quebrá-las em ínfimas partículas, assimilá-las o melhor possível, e guardá-las em uma caixinha segura – não para que sejam esquecidas, mas para que sejam lembradas como parte de uma coleção de aprendizados.

Pode parecer que o mundo nos exige demais, que ainda precisamos aprender muito, e que tudo pesa demais sobre nós. Mas há tempo, espaço e força suficientes para compreender tudo isso: a questão é nos lembrarmos de não deixar que o mundo simplesmente nos leve como barquinhos à deriva num fluxo incessante. Já que somos os passageiros, é preciso nos segurarmos às pontas dos galhos das árvores que estão presas às margens desse rio, para que nosso barco vença a força da correnteza. Coloque-se nesse lugar; essa é a hora de olhar a sua volta e perceber que o caminho não é só feito dessa corredeira, mas também de uma rica paisagem circundante que requer pausa para contemplação.